Reencontro entre desencontros

Lá estava ele. Não sei exatamente o porquê de estarmos marcando lugar para nos encontrar. Já éramos crescidos o suficiente para que cada um tivesse a consciência de que bastava parar para conversar, porém, ali estávamos. E ele me olhou intensamente, como quem queria dizer algo o qual estava preso há muito tempo. Parei em sua frente e tentei imaginar os motivos de toda aquela situação e da sensação que eu estava sentindo. Ele deu um sorriso meio envergonhado e a vontade que tive foi de tocar sua face. Esperava que ele me falasse algo, mas tudo o que fez foi segurar minha mão. Havia tempos que não nos tocávamos daquela maneira e logo minha mão começou a "formigar". A sensação do calor que se transportava dele para mim era conhecida, mas velha. Gostei de tê-lo perto de mim como antes e logo um sorriso bobo escapou de meus lábios. Ao ver, por impulso talvez, ele me abraçou. E como um feitiço que nos arranca do nosso universo, seu abraço me tirou do meu mundo e me levou para o nosso mundo. De repente esqueci de tudo. De toda a angustia das crises familiares, do estresse do trabalho e das nossas brigas passadas. Simplesmente esqueci o que era o mundo e de que ele existia.
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A pequena Clara

Situação estranha a qual aquela garota se encontrava. Tão pequena e repleta de antônimos. Seu nome era Clara. Tão nova, mas com um coração tão grande, sempre amando demais, gostando demais, mas sendo amada de menos. Imagino que ela deveria parar para pensar pelo que ela costuma passar quando gosta de alguém, talvez ela até já tenha o feito, não sei ao certo, porém não para, nunca desiste. Realmente me deixa surpreso ver como ela conseguiu, em tão pouco tempo, ter seu coração partido tantas vezes e ainda estar procurando um moço que a entenda e consiga cuidar dela, já que ela mesma não sabe como fazê-lo. E diante de tantos caras legais ela sempre escolhe o mais estranho: O misterioso ou o que escreve textos bonitos ou o excêntrico ou o com óculos esquisitos... Uma vez a perguntei se ela não tinha medo disso tudo, de sempre estar gostando de estar com quem não se importava muito com as sensações que ela estava a sentir e tudo o que ela me disse foi: "De que me adiantaria desistir, zé? Nada faria sentido. Eu não poderia sentir tudo o que eu sinto, eu não sorriria do nada. Você sabe como é extremamente bom sorrir só por causa de uma pessoa!"
Pequena Clara, bela de tantas as maneiras, sempre escrevendo em seu cadernos, textos e mais textos sobre seus amores platônicos, sobre o primeiro amor, sobre o carinha do colégio que a deixa feliz. Ela está sempre por aí, sorrindo feito boba, pensando em abraços, momentos e relacionamentos que provavelmente nunca chegarão a acontecer. Imagino como ela consegue sair por aí, encantando garotos sem saber disso, com aquele belo sorriso e uma felicidade que contagia tanta gente, mas mesmo assim escondendo tanta mágoa de um passado que só eu sei. Pobre garota, sempre gostando demais de quem não retribui e nunca percebendo quem a ama de verdade. Sei que isso é dela, da alma dela, que não consegue ficar presa e nem se submeter a pressão estar com alguém que queira estar vinte e quatro horas por dia com ela. Sei que ela adora algo estranho ou desconhecido, a chama atenção. Isso é dela, como eu disse. Clara não sabe viver presa, mas também não sabe viver sem amar, por mais complicado que seja para ela gostar de alguém de verdade.
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Sem razão.

Olhei em volta e tudo o que vi foi a vida me mostrando o quão monótono meus dias haviam se tornado desde que ela se fora. Há tempos tudo aquilo tinha se tornado comum e constante. Não me recordo de como eu costumava viver antes de toda essa situação. Não lembro dos momentos em que eu não estava sentado aqui, nesta poltrona velha, tomando o vinho antigo que talvez estivéssemos guardando e observando a fumaça surgindo dos cigarros recém-tragados. Tudo é sempre a mesma coisa. Não saio e não atendo os telefonemas. Ou melhor, não os atendia, já que não ouço o som do telefone tocar a um bom tempo. Não sei ao certo se, em algum desses dias sem graça, cheguei a pensar na possibilidade de viver de uma forma diferente. Estou aqui a tanto tempo que esqueço do que faço. Talvez sua falta me cause mais do que tristeza, monotonia e alcoolismo; talvez ela, a falta, tenha me deixado velho. Envelheço anos e meses em semanas, me aproximo cada vez mais de um destino que tenho esperado a tanto tempo. Continuo esperando o momento em que sua falta e a saudade que desestrutura meu corpo já não exista mais e tudo o que eu verei será seu rosto, mergulhado em sensações e cores confusas, ofuscando minha visão e acalmando o lugar onde, quem sabe, costumava haver um coração.

ClarissaCidade
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