Sem razão.

Olhei em volta e tudo o que vi foi a vida me mostrando o quão monótono meus dias haviam se tornado desde que ela se fora. Há tempos tudo aquilo tinha se tornado comum e constante. Não me recordo de como eu costumava viver antes de toda essa situação. Não lembro dos momentos em que eu não estava sentado aqui, nesta poltrona velha, tomando o vinho antigo que talvez estivéssemos guardando e observando a fumaça surgindo dos cigarros recém-tragados. Tudo é sempre a mesma coisa. Não saio e não atendo os telefonemas. Ou melhor, não os atendia, já que não ouço o som do telefone tocar a um bom tempo. Não sei ao certo se, em algum desses dias sem graça, cheguei a pensar na possibilidade de viver de uma forma diferente. Estou aqui a tanto tempo que esqueço do que faço. Talvez sua falta me cause mais do que tristeza, monotonia e alcoolismo; talvez ela, a falta, tenha me deixado velho. Envelheço anos e meses em semanas, me aproximo cada vez mais de um destino que tenho esperado a tanto tempo. Continuo esperando o momento em que sua falta e a saudade que desestrutura meu corpo já não exista mais e tudo o que eu verei será seu rosto, mergulhado em sensações e cores confusas, ofuscando minha visão e acalmando o lugar onde, quem sabe, costumava haver um coração.

ClarissaCidade
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2 comentários:

Thiago N. Raulino disse...

Desculpe a ousadia de comentar, mas não resisti!!!
Caramba, que belo texto! Sério! Ele é muito envolvente! Só fiquei com uma dúvida - se me permitir! A mulher de quem o narrador personagem fala, ela morreu?!

Clarissa Cidade disse...

No final das contas,é um mistério.

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