Divã

Ela entrou com uma expressão séria, os músculos faciais tensos e deitou-se no Divã.
- Olá senhorita, o que me contas hoje? - falei.
- Ai ai, senhor X, o de sempre...
- O de sempre? Não me recordo de haver algo assim - soltei um risinho.
- Ah, tá bem! Não tem mesmo... bem, na verdade, é algo diferente.
- Diferente, Irene? Hm, conte-me...

Ela me olhou daquela forma estranha e com aquele olhar de deboche que fazia toda vez que eu falava como psicólogo. Não poderia fazer nada, era minha profissão. Eu deveria ser assim, certo?

- Você é meu amigo , não precisa falar desse jeito.
- É o meu trabalho.
- "É o meu trabalho" - repetiu, meio triste, meio cabisbaixa.
- Bem, o que houve?
- Sabe, to cansada disso tudo... nunca dá certo.
- Ih, lá vem de novo.
- Que foi? Vai bem me dizer que eu falei isso no meu ultimo relacionamento?
- ...
- Ai, droga.

Silêncio. Ela sentou.

- Estou fechada pra reformas...
- Você, Irene?
- Meu coração.
- Mas tem espaço de sobra aí, não precisa de reforma.
- Argh, não tem. Já tá tudo destruído pelo ultimo filho da p%&$ que passou por aqui...
- Olha o palavrão, garota!
- Desculpe.

Silêncio. Ela olhou para a janela e deu um sorriso.

- Você é meio bipolar, sabia? - falei, rindo.
- Me deixa...
- Deixa-me.
- Vai a merda - ela riu.
- Ai ai, mal criada você né...
- São as amizades que eu arranjo, tá assim sabe.
- Devia arranjar um novo amor, isso conserta esse coração que tá fazendo você ser grossa assim - olhei nos seus olhos.
- Novos amores só são novos durante alguns dias, depois voltam sempre a ser velhos conhecidos... não acha? Cansei deles, X, cansei. 'Tô' machucada, sabe?

Olhei para ela, que deixou uma lágrima escapar dos olhos, assim, descendo pelas suas bochechas, até cair no chão.

- Não fica assim. Só não eram os caras certos...
- Cansei de tantos caras errados. Quando é que a  Po#@@ do cara certo vai aparecer?
- Olha a boca.
- Desculpe.

Silêncio.

- Olha, eles aparecem. Você só tem que parar de procurar e viver, sabe? Você é linda... Não precisa deles.
- Tenho estado tão carente...
- Você não precisa deles, repito.
- Será?
- Precisa?
- ...
- Ein?
- Não preciso.
- Então vai ter um tempo pra ti, guria. Tu precisa disso.
- Verdade...
- E olha só, não deixa de vir aqui... tava com saudade!
- Haha, também tava, X, também tava...

Silêncio. Abraços.

- Até mais.

Ela sorriu. A porta se fechou.

- Ai ai, minha pequena... eu amo você. - sussurrei.
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Lua, ela, ele e o relacionamento.

A lua hoje estava imersa naquele céu negro e sem estrelas. Sozinha, pela metade. A lua era eu. Sentia-me como ela. Sem minha metade, sozinha, melancólica. Onde eu estava naquele momento? Olhei em volta. Escuro. Realmente, eu estava deslocada. Tinha tentando me isolar um pouco, talvez a escuridão me ajudasse a pensar em algo. Talvez fizesse minha cabeça funcionar, afinal. Acabei que estava lá, no escuro e completamente sozinha. Desde que ele tinha se tornado um estranho para mim, minha capacidade de escrever se tornou algo quase inatingível. É complicado quando se pensa em tanta coisa e não se consegue passar tudo para o seu velho pedaço de papel. Não o sinto mais perto de mim, sua presença me parecia mais um fato passado do qual eu me lembrasse vagamente.
Olhei de novo para aquela lua, sozinha. Estávamos sozinhas, eu e a lua. Queria que ela falasse, que me disse tudo o que eu deveria fazer, mas tudo era tão difícil.
- Por que eu não consigo escrever, droga! - chutei o caderno.
Eu estava cansada daquelas preocupações e dificuldades em tudo que eu e ele fazíamos. Parecia que havia sempre algo que nos impedisse de ficarmos juntos, mas dessa vez, era ele que estava diferente e eu sabia disso. Eu sabia que ele estava diferente, estranho, e eu simplesmente não tinha mais forças para lutar por algo que me preocupava, me deixava insegura. Eu tinha medo. Talvez fosse isso mesmo que eu sentisse: medo. Eu estava no escuro, eu e a lua, sozinhas e com medo. Ela estava lá, no céu vazio, acostumada com tudo a sua volta. Eu não. Nos mantínhamos caladas, nos comunicando em silêncio. Não sabia se ficar sozinha ali era realmente o que eu queria, mas talvez fosse o que eu precisava. Precisava do escuro, da melancolia, do céu negro. Precisava estar acostumada, assim como aquela lua.
- Quero ser você, lua... -sussurrei.
Eu não era e nunca seria uma lua, flutuando no céu. Às vezes acompanhada de estrelas, outras não. Deitei no chão e senti a grama roçar meu pescoço. "Sou humana..." pensei. Sempre seria humana. Quem sabe um dia eu levantasse dali e escrevesse um texto. Quem sabe um dia eu escrevesse sobre a lua solitária. Ou quem sabe eu continuasse ali, até o dia em que tudo resolvesse dar certo.
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Um conselho (história levemente modificada)

Pode não ser um texto sobre amor, ou um coração partido ou seja lá o que for. Pode até ser algo monótono. Procurei durante toda a semana escrever mais um parágrafo do meu livro, escrito naquele meu caderno surrado, mas acabei por perceber que não era sobre amor que eu queria escrever, nem sobre uma história de coração partido. Eu realmente senti uma tendência a escrever algo mais pessoal, ou até mesmo mais abrangente.
Você deve estar se perguntando se eu realmente pensei em algo espontaneamente, a partir do momento em que decidi escrever sobre algo... não pensei. O que me trouxe até aqui foi uma conversa cotidiana sobre uma mudança de rotina. Uma conversa boba jogada fora com um amigo, ele me contou que estava estressado por causa de certos motivos a parte, mas algo mudou o dia dele: Uma velhinha que tinha um problema na perna e andava de cadeira-de-rodas pegou o mesmo ônibus que ele. A velhinha, que estava tão alegre por ter ganhado uma pequena ajuda ( um saco de pão, de arroz, não me recordo agora) recebeu ajuda do motorista, que passara o dia em um trânsito estressante. O motorista, com um sorriso no rosto, ajudou a velhinha feliz e ainda agradeceu ao meu amigo no final.
Sei que pode parecer meio bobo e meio "livro de autoajuda", mas é sobre isso que eu quis escrever: felicidade, gentileza e pequenas coisas. No final do dia, a gente tem tanta coisa ruim acumulada na cabeça e nem percebe que é tudo tão menos importante e preocupante em relação aos problemas de outras pessoas. O mundo e as pessoas às vezes acabam se tornando egocêntricas e entristecidas sem saber. Aquela velhinha passou por tanta dificuldade e mesmo assim, apenas com um saco, se sentiu feliz com o que tinha. O motorista, mesmo com um dia ruim (talvez), não deixou de ser gentil e sorrir no final de dia.
E você? Tem ido em busca de sua felicidade sem entristecer a si mesmo ou aos outros por conta de um dia estressante? Pensa bem, você já tem tanto motivo pra sorrir e nem parou pra pensar nisso. Situações e desafios a gente supera, ao contrário de uma vida amarga e sem felicidade. Abre um sorriso, ri, que essa etapa difícil passa, cedo ou tarde.
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Lápis, papel e uma ex poeta

Já escrevi sobre tanta coisa
Hoje "tanta coisa" já não me basta
Já escrevi sobre tanta coisa
Hoje, a falta de palavras me afasta

Queria poder ter algo em mente
Alguma coisa, mesmo emaranhada
Queria poder pensar, realmente
Naturalmente
Mas não penso em nada

Já não escrevo como escrevia
Já não sonho como eu sonhava
Não penso no que escreveria
Nem deveria
Não amo como amava

Não tenho mais tempo
Situações, já não invento
Não penso em pensar
Nem chego a imaginar

Já escrevi sobre tanta coisa
Hoje estou vazia
Já escrevi sobre tanta coisa
Agora não escrevo como podia
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