Vem, mas vem logo
Não me deixas a te esperar
O coração não aguenta
Não fortalece, não esquenta
E esquece de se cuidar


Só lembro que amo
Que quero 
E espero


Espero porque um dia, talvez, essa espera
Quem dera
esqueça de me fazer esperar
E te traga de volta pra mim, 
Sem aqueles momentos piegas sob o pôr-do-Sol ou luar
Só te traga


Vem, mas vem logo
Não consigo esperar
Espera que me tira a paciência
Traz a carência
E que só me lembra de gostar
Ah! Gostar de amar


ClarissaCidade
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O garoto

É estranho pensar em como aquilo tudo parecia tão precoce. Eu estava ali, como aquela boba que sou, imaginando e inventando todos os tipos de situações possíveis, e todas as frases que eu poderia falar quando eu o visse. Era interessante o modo como ele conseguia me intimidar. Uma garota tão marrenta como eu não deveria se deixar afetar por um cara assim tão fácil, eu sei, mas o problema era que ele não era apenas um cara. Ele era incrivelmente belo de todas as maneiras possíveis, o que me fazia sempre pensar em uma maneira de parecer com que eu não fosse menos, mas nunca dava certo. Ele sempre me intimidava, como eu disse. Aquele sorriso alegrava minhas tardes e a sensação de estar ao lado dele era completamente relaxante. Não digo como se estivesse completamente apaixonada por ele ou como se o garoto fosse minha alma gêmea, eu apenas gostava de estar ao lado dele. Mesmo com toda a inquietação, eu conseguia encontrar um ponto de paz assim que nos dirigíamos a palavra(...)


Clarissa Cidade
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Procurando me perder.

Eu me perco
Perco-me e não me acho
Confundo-me, me embaralho, me afasto
Aí, eu me arrasto, me gasto
e causo gastos

Mas não desisto, afinal, não vale a pena
Quem desiste, a vida condena
Se eu for condenada, não te acho
Não me acho
Não me embaralho
Nem mesmo no teu embaralhado

E não quero não ser achada
Não quero estar longe da tua confusão
Junta a minha com a tua
Minha complexidade, minha vida
Meu amor, cola no teu
E meu coração... só seu, meu bem, só seu.

ClarissaCidade
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O garoto dos sapatos estranhos


Sinto uma sensação estranha. Mais estranha do que a que sentia quando a velha vendedora de cigarros me oferecia uma de suas calças largas e extravagantes. Uma vontade louca que me levava a pensar em apenas uma coisa. No meio de toda aquela gente, meus olhos ziguezagueiam, procurando sempre o garoto dos sapatos estranhos. Era incompreensível para mim a vontade enorme que eu tinha de achá-lo no meio daquela multidão. Foram tentativas frustradas até o momento em desço as escadas e me deparo com sua figura indo na direção contrária. Ele sorri, me abraça e beija o alto de minha testa. Logo depois, vai embora, sempre acompanhado daquele amigo o qual o nome nunca me recordo. É, sempre assim… inacreditável pensar que eu esperava tantas horas só por um momento como esse. Nunca tive coragem de parar e conversar, me sinto nervosa. Ele me deixa nervosa. Tudo por causa daquele sorriso bobo que me tira atenção. O que acontece comigo? Menina boba, que passa tardes escrevendo versos e prosas inspirada no seu amor platônico e secreto, um garoto que nem imagina a confusão que ele causa na cabeça dessa menina complicada.
Sensação estranha essa que me causa um emaranhado de situações imaginárias, como se eu tivesse a coragem de por pelo menos uma delas em prática. Gostaria de ter um vocabulário mais rico, cheio de palavras bonitas, daquelas que se vê em livros e citações cultas. Talvez o fato de que eu pudesse ter palavras que ajudassem a me expressar de inúmeras maneiras me traria a coragem necessária para que eu conseguisse passar ao menos alguns minutos - tão desejados -  com o garoto que chamava minha atenção.
Vontade louca essa que me persegue e faz companhia todos os meus dias desde que o vi passar com aqueles sapatos esquisitos. Sai, vai embora! Não adianta, ela sempre volta quando o vejo. E assim, eu continuo do jeito que estou. Com vontade, querendo e desejando a presença dele. Sentindo uma bagunça nos meus pensamentos já um pouco enrolados.
Sensação esquisita essa, que já não me deixa passar por aqui sem ter a esperança de vê-lo.

ClarissaCidade.
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Incerto

Quem sabe um dia você apareça por aqui com seu velho cabelo bagunçado e aquele sorriso torto que você sempre dava quando fazia algo errado. Você dirá que não aguentava mais ficar longe do aconchego da minha cama e que sentia falta do meu café requentado em plena seis horas da manhã. Talvez você não venha, mas esteja com uma vontade louca de vir até aqui e bater à minha porta. Pode até mesmo estar pensando se vem ou não, sentado em sua poltrona velha e tomando uma taça do seu vinho preferido, como fazia todas as noites de sexta-feira.
Penso que você possa chegar a vir. Largue toda essa bebida cara e cigarros já usados e venha. Entre sem bater ou até esqueça de fazê-lo. Não importa, você pode dizer que é força do hábito. Quem sabe essa cena aconteça diversas vezes até que você me encontre em casa e possar dar todas as desculpas possíveis para o seu suporto ato de vandalismo. E que se você vier, possa entender o que aconteceu depois de sua partida. Irá olhar nos meus olhos e ver que toda aquela dor e sofrimento já não estão mais ali. Não vai mais ver a mulher ingênua que andava com um coque no cabelo e um vestido florido. A partir desse momento você descobrirá que já não dependo dos seus carinhos e sorrisos e sim da mulher - uma nova mulher - que está a sua frente.
Tá, talvez você nem venha mesmo. Se não vier, continuarei aqui, esperando e imaginando inúmeras possibilidades depois daquele telefonema não atendido que fiz à sua casa, desejando que você atendesse e ficasse com vontade de vir até aqui. E  viesse, só para que eu pudesse mostrar tudo o que falei antes e que eu havia superados, o que talvez… quem sabe, nem fosse verdade, contrariando todos os meus pensamentos, desejos e palavras.

Clarissa Cidade
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Seu "caderno"

Ei, me nota? Vê-me e me anota no seu caderno. Aquele mesmo caderno que você escreve suas coisas importantes e algumas outras bobagens. Faz-me importantes, nem precisa ser muito. Basta me por ali mesmo, como um rabisco ou um nome escolhido aleatoriamente em um catálogo de eletrônicos. Só me faz, me pinta, me cobre. Não preciso de cores vivas ou traços completamente bem delineados, só preciso estar ali, como algo que você tenha notado, gostado e anotado. Não preciso de várias folhas, me anota ali mesmo, no cantinho daquela ali, com desenhos de rosas e poemas jogados, largados, mas que devem expressar algo que você sentiu em determinado momento, quando suas emoções se chocaram. Só te peço algumas coisas: Não me tira dali, não me arranca, risca ou apaga. Não vou te fazer mal ou trazer alguma lembrança que você não queira lembrar. Já te disse, não preciso de muito, mas não tira o pouco de minhas linhas. Não me tira as palavras, a cabeça, o coração. Me deixa ali, completa, sem mexer no que você rabiscou. Só me deixa ali. Nem vou ocupar tanto espaço assim, não preciso nem ser feita de forma permanente. Vai, me desenha e rabisca no seu caderninho. Aquele caderno velho e machucado, do qual eu queria tanto fazer parte. O mesmo caderninho em que você desenhou tantas outras garotas e escreveu inúmeros textos apaixonados, mas que tais jovens sempre acabavam rasgando suas folhas. Deixa-me fazer parte do seu caderno usado e às vezes magoado. Juro que posso torná-lo novo. Vai, me nota, me vê, me anota.

Clarissa Cidade
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Palavras jogadas em uma folha de papel

O que eu sou? Oh, meu bem, já nem sei mais. Costumava ser tudo em volta e me camuflar de todas as maneiras possíveis. Vida estranha , essa que já nem posso usar palavras para descrever o que sou e no que me transformei, independente dos meus traços e formas embaralhadas. Lembro-me de conseguir fazê-lo, antigamente. Era difícil definir algo tão inconstante, porém, se você me perguntasse naquela época, eu lhe diria o que eu era, pelo menos naquele determinado momento. Logo depois, quem sabe, eu mudaria. Não exatamente pelo fato de ter lhe falado, mas porque eu realmente gostava daquilo. Mudanças me faziam bem, sabe? É meu querido, eu mudava muito. Fazia-me bem a ponto de renovar minha alma todas as vezes.
Já tive tamanhos, formas e cores de todos os tipos, mas não sei ao certo como me encontro agora. De tanto ser decifrada me tornei indecifrável, já não consigo definir meu “eu” de uma forma sucinta, então lhe digo: Sou do jeito que sou, assim como fui nas minhas formas passadas. Sem quantidades, sem tamanho sem saber como ser. Apenas sou, me entende? O que costumava ser nuvem, Sol, mar… gargalhada, olhares, amar.  O que eu era, já não sou, assim como o que eu sou, nunca pensei em ser. Já se passou tanto tempo, meu bem, que minhas forças para mudar, de certa forma, já não existem mais. Chega uma hora que você fica velho, cansado e a imaginação esquece de aparecer. É , querido, já não tenho minha juventude e maleabilidade, mas não te preocupas, esse tipo de coisa acontece. Principalmente esse universo embaralhado e desgastados em que vivemos. Vai, te transforma. Voa longe. Ainda não chegou o seu tempo. Aproveita enquanto ele não entra pela porta devagar e sorrateiramente, porque é assim que o tempo faz: ele te surpreende.

C.C
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