A lua hoje estava imersa naquele céu negro e sem estrelas. Sozinha, pela metade. A lua era eu. Sentia-me como ela. Sem minha metade, sozinha, melancólica. Onde eu estava naquele momento? Olhei em volta. Escuro. Realmente, eu estava deslocada. Tinha tentando me isolar um pouco, talvez a escuridão me ajudasse a pensar em algo. Talvez fizesse minha cabeça funcionar, afinal. Acabei que estava lá, no escuro e completamente sozinha. Desde que ele tinha se tornado um estranho para mim, minha capacidade de escrever se tornou algo quase inatingível. É complicado quando se pensa em tanta coisa e não se consegue passar tudo para o seu velho pedaço de papel. Não o sinto mais perto de mim, sua presença me parecia mais um fato passado do qual eu me lembrasse vagamente.
Olhei de novo para aquela lua, sozinha. Estávamos sozinhas, eu e a lua. Queria que ela falasse, que me disse tudo o que eu deveria fazer, mas tudo era tão difícil.
- Por que eu não consigo escrever, droga! - chutei o caderno.
Eu estava cansada daquelas preocupações e dificuldades em tudo que eu e ele fazíamos. Parecia que havia sempre algo que nos impedisse de ficarmos juntos, mas dessa vez, era ele que estava diferente e eu sabia disso. Eu sabia que ele estava diferente, estranho, e eu simplesmente não tinha mais forças para lutar por algo que me preocupava, me deixava insegura. Eu tinha medo. Talvez fosse isso mesmo que eu sentisse: medo. Eu estava no escuro, eu e a lua, sozinhas e com medo. Ela estava lá, no céu vazio, acostumada com tudo a sua volta. Eu não. Nos mantínhamos caladas, nos comunicando em silêncio. Não sabia se ficar sozinha ali era realmente o que eu queria, mas talvez fosse o que eu precisava. Precisava do escuro, da melancolia, do céu negro. Precisava estar acostumada, assim como aquela lua.
- Quero ser você, lua... -sussurrei.
Eu não era e nunca seria uma lua, flutuando no céu. Às vezes acompanhada de estrelas, outras não. Deitei no chão e senti a grama roçar meu pescoço. "Sou humana..." pensei. Sempre seria humana. Quem sabe um dia eu levantasse dali e escrevesse um texto. Quem sabe um dia eu escrevesse sobre a lua solitária. Ou quem sabe eu continuasse ali, até o dia em que tudo resolvesse dar certo.
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