Desapego inatingível

Pensei tantas coisas ontem, debaixo do cobertor, fugindo do frio que estava lá fora. Ouvi sua voz durante alguns minutos, ali no meu pensamento mesmo, já que havia perdido seu número a um ano atrás. Pensei tantas coisas que no final das contas, tudo acabava sendo sobre você. Como era seu cheiro, seu jeito de olhar, as nossas brigas, os sorrisos e os abraços. Pensei em como eu havia me prendido a você todos esses anos e em como ainda procurava você em todas as garotas, quando na verdade nenhuma se igualava a garota com quem namorei. Nenhuma delas tinha aquele teu jeito frouxo de falar, a forma como você mexia no cabelo e aquela sua mania estranha de estalar os dedos quando estava nervosa. Nenhuma delas era você e eu simplesmente, de alguma forma, lá no meu subconsciente, não conseguia aceitar isso.
Talvez, la no fundo, eu ainda a amasse. Talvez não. O problema é que sem querer quase querendo eu conseguia me apegar a qualquer garota que tivesse uma semelhança com você. E toda hora as comparações   atingiam minha mente, assim, de repente, sem que eu ao menos esperasse.
Eu tentei, juro que tentei, mas às vezes acho que não tem mais jeito. Não tem mais graça, é tudo sempre a mesma coisa, sempre a mesma rotina. Tenho tentado mudar as vezes, mudando o caminho o qual vou ao trabalho, assistindo o resultado das eleições, mas nada muda. E o desapego, onde foi parar? Que droga! Cadê o desapego de uma imagem falsa que criei em minha mente ou d'uma rotina da qual não consigo me separar? Não quero que volte, não quero... iria piorar tudo, talvez nem fosse a mesma coisa. Queria só me ver livre disso tudo, queria me apegar a liberdade mental, mas aqui estou eu, pensando. Pensei em tantas coisas, muitas mesmo. No final de tudo, adormeci. Dormi, pois pensar muito me deu um sono, e amanhã era um novo dia. Ou quase novo.
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